Menino Malvado (1883) – 
Anton P. Tchekhov (1860-1904)

malchik

Ivan Ivanitch Lápkin, um jovem de boa aparência, e Anna Semyônovna Zamblískaya, uma jovem com nariz arrebitado, desceram por uma encosta íngreme do rio e sentaram-se em um banquinho. O banquinho ficava na beira da água, entre uns arbustos densos de um jovem salgueiro. Um lugar maravilhoso! Quem senta-se lá permanece oculto ao resto do mundo, e será visto apenas pelos peixes e pelas aranhas d´água que se movem como raios sobre a água. Os jovens estavam armados com varas de pescar, redes, jarros de minhocas e outros equipamentos de pesca. Logo que sentaram, imediatamente começaram a pescar.

– Eu estou feliz que estamos finalmente a sós, – começou Lápkin, olhando em volta. – Eu devo lhe dizer muitas coisas, Anna Semyônovna,… muitas, muitas coisas… Quando eu a vi pela primeira vez… Isto é uma mordida… Eu entendi então, a razão pela qual eu vivo, entendi onde se encontrava o ídolo ao qual devo dedicar a minha vida honesta e esforçada… Isto deve ser uma mordida forte… Quando te vi, eu me apaixonei pela primeira vez, me apaixonei perdidamente! Espere um pouco antes de puxar… deixe ele morder melhor… Me diga, minha amada, eu peço, se posso ter a esperança – não da reciprocidade, não! – disto eu não sou digno, não ouso nem pensar sobre isso, – posso eu ter a esperança de… Puxe!

Anna Semyônovna levantou o braço com a vara de pescar para o alto, deu uma puxada brusca e gritou. No ar brilhava um peixe prateado-esverdeado.

— Deus do céu, é uma perca! Ai, ai, rápido! Soltou-se!

A perca soltou-se do anzol, saltou pela grama na direção do seu elemento natural e… tchibum na água!

Na tentativa de pegar o peixe, Lápkin, de alguma maneira, em vez do peixe, agarrou acidentalmente o braço de Anna Semyônovna, apertando-o acidentalmente contra seus lábios… Ela puxou o braço mas já era tarde, as bocas acidentalmente uniram-se em um beijo. Isso tudo veio a ocorrer de maneira acidental. Depois do beijo seguiu outro beijo, depois juramentos, promessas… Minutos felizes! Porém, nesta vida terrena não existe nada absolutamente feliz. A felicidade geralmente traz consigo um veneno, ou então é envenenada por algo que vem de fora. E assim foi desta vez. Enquanto os jovens se beijavam, de repente ouviu-se um riso. Eles levantaram o olhar para o rio e espantaram-se: na água estava de pé um menino nu até a cintura. Era Kólya, estudante ginasial, irmão de Anna Semyônovna. Ele permaneceu em pé na água, olhando para o jovem casal e riu maliciosamente.

— A-a-a… Vocês estão se beijando? — disse ele. — Muito bem! Eu vou contar pra mamãe.

— Espero que você, como um homem honesto… balbuciou Lápkin, corando. — Espiar os outros é indecente, e delatar alguém é algo baixo, vulgar e indecoroso… Eu suponho que você, como um homem honesto e nobre…

— Me dê um rublo que eu não conto! — falou o homem nobre. — Senão eu conto.

Lápkin tirou do bolso um rublo e deu para Kólya. O menino espremeu o rublo dentro do seu punho molhado, assobiou e foi embora nadando. E, nesta ocasião, os jovens não mais se beijaram.

No dia seguinte Lápkin trouxe da cidade para Kólya um conjunto de tintas e uma bola, e a irmã deu a ele todas as suas caixinhas usadas para colocar pílulas. Depois tiveram que presenteá-lo com abotoaduras com focinhos de cachorro. O menino malvado, obviamente, adorava tudo isso, e para ganhar ainda mais presentes, ele começou a espionar. Para todo canto aonde iam Lápkin e Anna Semyônovna, ele ia atrás. Nem por um minuto ele deixava os dois a sós.

— Que canalha! — disse Lápkin, rangendo os dentes. — Tão pequeno, e já tão grande um canalha! O que vai ser desse moleque no futuro?

Durante todo o mês de junho, Kólya não deu paz aos infelizes apaixonados. Ele ameaçava delatá-los, espionava e exigia presentes. Para ele tudo era pouco, e no fim começou a falar o tempo todo sobre relógios de bolso. Não deu outra. Eles tiveram que prometer-lhe um relógio.

Uma vez durante o almoço, quando eram servidos crepes, ele repentinamente disparou a rir alto, piscou um olho e perguntou a Lápkin.

— E aí? Conto?

Lapkin corou de terror e mastigou o guardanapo em vez do crepe. Anna Semyônovna deu um salto por trás da mesa e correu para outro quarto.

E foi nessa situação que permaneceram os jovens até o final de agosto, até aquele dia em que, finalmente, Lápkin propôs Anna Semyônovna em casamento. Oh, como esse dia foi feliz! Tendo conversado com os pais da noiva e obtido a sua concordância, a primeira coisa que Lápkin fez foi correr para jardim e iniciar a procura de Kolya. Ao encontrá-lo, quase chorou de êxtase e agarrou o menino malvado pela orelha. Anna Semyônovna, que também procurava Kolya, chegou correndo pouco depois, e agarrou a outra orelha. Era preciso que se visse o prazer que estava estampado nos rostos dos apaixonados, quando Kólya chorou e implorou:

— Queridinhos, amiguinhos, amores meus, juro que não faço mais! Ai, ai, me perdoa!

E depois, ambos confessaram que durante todo o tempo em que estiveram apaixonados um pelo outro, eles nunca haviam sentido tamanha felicidade, tamanho prazer extasiante, quanto naqueles minutos em que puxavam o menino malvado pelas orelhas.

Traduzido do russo por Helder da Rocha, em 08/05/2015. Fonte: Злой Мальчик. Ilustração de Helder da Rocha.

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