O leão (1935) – 
Yevgeny Zamyátin (1873-1937)

2016-01-06 15.29.06

Tudo começou com um acontecimento absolutamente fantástico. Mais precisamente, o grande rei dos animais, o leão, revelou-se um grande bêbado. Ele tropeçou sobre as suas quatro patas e despencou para o lado. Isto foi uma absoluta catástrofe.

O leão estudava na universidade de Leningrado e trabalhava em paralelo como figurante de balé no teatro. No espetáculo de hoje, vestido em pele de leão, ele deveria permanecer de pé no penhasco e esperar o instante em que seria atingido por uma lança arremessada pela heroína do balé. Nesse momento, o leão morto cai do penhasco em um colchão atrás do palco. Nos ensaios tudo ocorreu perfeitamente, e justo hoje, no dia da estréia, faltando meia hora para a abertura das cortinas, o leão apronta uma dessas! Não havia figurantes extras. Cancelar o espetáculo seria impossível: esta noite estaria presente um alto comissário do governo vindo de Moscou. No gabinete do “diretor vermelho”, acontecia uma reunião de emergência.

Alguém bate na porta, e no gabinete surge Pétya Jerebyákin — bombeiro do teatro. O diretor vermelho (ele agora estava realmente vermelho — de raiva) atirou-se na direção dele:

— O que é desta vez? O que é que você precisa? Não tenho tempo! Vá embora daqui!

— Eu, senhor diretor… eu… é sobre o leão, — falou Jerebyákin .

— O que é que tem o leão?

— Considerando que o nosso leão está bêbado, então… eu desejo, senhor diretor, fazer o papel do leão.

Não sei se existem ursos sardentos e de olhos azuis. Se existem, então uma figura imensa como Jerebyákin, de coturnos que parecem de ferro fundido, pareceria muito mais com um urso, do que com um leão. Mas e se por um milagre qualquer ele pudesse ser o leão? Ele jura que pode, que ele assistiu todos os ensaios das coxias, e que quando ainda era soldado fez um papel na peça “Rei Maximiliano”. Então, com despeito pelo diretor da peça que esboçava um sorriso torto, o diretor vermelho ordenou que Jerebyákin fosse vestir-se imediatamente para fazer um teste.

Em alguns minutos os músicos no palco já tocavam baixinho a “Marcha do Leão”. O Leão Pétya Jerebyákin apresentou-se na pele do leão, não como se tivesse nascido numa aldeia da província de Ryazan, mas num deserto da Líbia. Porém, no último instante, quando deveria cair do penhasco, ele olhou para baixo e hesitou.

— Cai logo, demônio… cai! — chiou o diretor da peça, sussurrando com raiva.

O leão, obediente, despencou penhasco abaixo. Caiu de mal jeito sobre a coluna e permaneceu deitado, sem conseguir ficar em pé. Será que ele não vai se levantar? Será que agora, no último instante, temos outra catástrofe?

Levantaram-no. Ele arrastou-se para fora da pele e levantou-se, pálido, com a mão na coluna e um sorriso envergonhado. Um dos seus dentes superiores estava faltando, e esse sorriso lhe passava uma aparência piedosa e infantil (se bem que sempre existe algo de infantil em relação aos ursos, não é mesmo?)

Felizmente não foi, aparentemente, nada muito sério. Ele pediu água. O diretor do teatro mandou que lhe trouxessem um copo de chá do seu gabinete. Depois que ele bebeu o chá, o diretor do teatro começou a apressá-lo.

— Bem, camarada, vá se vestir de leão. Entre no seu couro. Entre, entre, meu amigo, logo, logo vamos começar!

Alguém, prestativo, veio correndo com o couro, mas o leão recusou-se a entrar nele. Declarou, resoluto, que tinha algo que precisava fazer fora do teatro. Que necessidade extrema era esta, ele recusou-se a explicar. Apenas sorriu envergonhado. O diretor do teatro inflamou-se de raiva. Ele tentou dar ordens, tentou lembrar a Jerebyákin que ele, candidato do partido, era um operário padrão, mas o leão-operário-padrão, teimoso, não se rendeu. O diretor teve que ceder. Então, com o brilho desdentado de seu sorriso, Pétya Jerebyákin saiu correndo do teatro em disparada.

— Para que, para onde o diabo o levou? — perguntou, mais uma vez vermelho de raiva, o diretor do teatro. — Que segredos ele têm?

Ninguém tinha a resposta que o diretor vermelho queria: o segredo era conhecido apenas por Pétya Jerebyákin e, naturalmente, pelo autor desta estória. Então, enquanto Pétya Jerebyákin corre para algum lugar debaixo de uma chuva de outono em São Petersburgo, nós podemos viajar no tempo até uma certa noite de julho, onde nasceu o seu segredo.

Essa noite não era noite. Era dia, cochilando levemente por um segundo, assim como cochila o soldado que marcha, sem interromper seus passos, confundindo sonho com realidade. No espelho rosado do canal, cochilavam viradas de pernas para o ar, árvores, janelas, colunas, São Petersburgo. E de repente, com uma suave brisa, São Petersburgo desaparece. Em seu lugar está Leningrado. Acordada pelo vento, uma bandeira vermelha sobre o Palácio de Inverno; diante de uma cerca no jardim Alexandrovsky, um policial com uma espingarda.

O policial estava cercado de perto por um grupo de operários dos bondes noturnos. Por detrás dos ombros, era visível a Pétya Jerebyákin apenas o rosto do policial: redondo, parecido com as maçãs-adocicadas de Ryazan. Algo muito estranho acontecia: agarraram o policial pelos braços, pelos ombros, e finalmente, um dos operários, tirando o cachimbo da boca, gentilmente tasca um beijo na sua bochecha. O policial enrubesce, apita seu apito furiosamente, e os operários dispersam. Permanece Pétya Jerebyákin sozinho, cara a cara com o policial, e inesperadamente, como se assustado pelo vento do reflexo de São Petersburgo, o policial desaparece. Diante de Jerebyákin estava uma mulher com quepe e uniforme de policial, a primeira policial feminina, colocada pela revolução na avenida Nevsky. As sobrancelhas pretas sobre a ponte do nariz uniam-se com raiva. Dos seus  olhos saíam faíscas.

— Que vergonha, camarada! — A policial falou apenas isto, mas como falou! Ele se atrapalhou, e balbuciou com culpa:

— Mas, juro, não fui eu! Eu estava apenas indo para casa…

— Eca! Você… um operário ainda por cima! — Disse a policial, encarando-o. E como encarou!

Se houvesse aqui, no calçamento, uma portinhola falsa, como as que existem no palco do teatro, através dela Jerebyákin escaparia, e esta teria sido a sua salvação. Mas ele teve que escapar caminhando devagar, sentindo aquele olhar atravessá-lo, queimando suas costas.

O dia seguinte foi novamente uma noite branca, novamente estava Jerebyákin indo do seu trabalho no teatro para casa, e novamente diante das grades do jardim Alexandrovsky estava a policial. Jerebyákin quis passar de fininho, mas percebeu que ela olhava para ele, e, envergonhado, baixou a cabeça com culpa. Ela acenou. No metal preto-espelhado da sua espingarda refletia a aurora, e o metal parecia rosado. E diante dessa espingarda rosada Jerebyákin percebeu-se mais tímido, do que diante de todos aqueles que durante cinco anos atiraram nele em várias frentes de batalha.

Apenas depois de uma semana ele arriscou iniciar uma conversa com a policial. Descobriu que ela também, como Jerebyákin, veio da província de Ryazan, e que também lembrava das suas maçãs-adocicadas. Aquelas, que são doces, mas um pouquinho amargosas. Como elas, por aqui não há…

Todos os dias, no caminho de casa, Jerebyákin parava diante do jardim Alexandrovsky. As noites brancas estavam enlouquecedoras, e o céu verde, rosado e bronzeado não escurecia nem por um segundo. No jardim, como se fosse dia, um casal que se abraçava procurava uma sombra para não serem vistos.

Nessa noite, desajeitado como um urso, Jerebyákin  perguntou à policial:

— Então, por exemplo, vocês policiais, no desempenho de suas obrigações… vocês podem casar? Quero dizer, não quando estão em serviço, mas em geral, como seu serviço sendo como militar…

— E para que casar? — respondeu a policial Kátya, escorada na sua espingarda. — Agora nós somos como os homens: é só querer, e amar…

A espingarda dela estava rosada. A policial levantou o rosto para o brilho do céu febril, depois olhou de passagem por Jerebyákin  e concluiu:

— Por exemplo, se um homem que escreve poemas… ou um ator, que entra em cena e o teatro inteiro aplaude…

Maçã-adocicada: é doce, é amarga. Pétya Jerebyákin compreendeu que seria melhor ele ir embora dali e não voltar nunca mais: seu negócio estava terminado…

Não, não estava! Ainda existem milagres na terra! E quando aconteceu aquele evento inacreditável, em que o leão, por vontade divina, caiu bêbado, a sorte ocorreu a Pétya Jerebyákin  e ele apressou-se ao gabinete do diretor.

Mas isso tudo é passado. Agora ele corre debaixo de uma chuva de outono na rua Glinka. Felizmente, ficava do lado do teatro, e felizmente ele encontrou a policial Kátya em casa. Ela agora não era policial, era simplesmente Kátya. Com as mangas arregaçadas, ela estava lavando no tanque uma blusa branca. Na sua testa e nariz surgiram gotas de orvalho, e nunca ela esteve tão doce, como agora, doméstica.

Quando Jerebyákin pôs diante dela o bilhete de cortesia e disse que hoje ele iria atuar no espetáculo, ela não acreditou. Depois, ficou interessada. Depois, por alguma razão, ficou envergonhada e baixou as mangas arregaçadas. Depois olhou para ele (e como olhou!) e disse que iria sem falta.

O toque da campainha do teatro já soava alto pelas áreas de fumantes, pelos corredores, pelo foyer. O comissário careca, no seu camarote, espremia os olhos através de um pince-nez. No palco, por trás da cortina ainda fechada, as bailarinas ajustavam suas saias com os mesmos gestos dos cisnes quando baixam as asas para limpá-las na água. E por trás do penhasco, próximo do Leão Jerebyákin, preocupavam-se os diretores da peça e do teatro.

— Lembre-se: você é um operário-padrão! Preste atenção! Não estrague tudo! — sussurrou no ouvido do leão o diretor do teatro.

A cortina foi levantada, e atrás das luzes incandescentes da ribalta revelou-se, diante do leão, a sala escura preenchida até o teto de manchas brancas, de rostos. Tempos atrás, quando era ainda apenas Jerebyákin, ele havia saltado para fora de uma trincheira. Diante dele explodiam bombas. Ele se contorceu, e seguindo o costume de sua aldeia, fez o sinal da cruz e prosseguiu adiante sem pensar. Agora lhe parecia que não conseguiria dar sequer um passo. Mas o diretor da peça empurrou-o pelas costas, e ele, virando-se com dificuldade, com braços e pernas que de repente haviam se tornado estranhos, lentamente escalou o penhasco.

No alto do penhasco o leão levantou a cabeça, e viu, bem de perto, em um balcão do segundo piso, escorando-se contra a barreira de proteção, a policial Kátya. Ela olhava diretamente para ele. O coração leonino bateu forte uma, duas vezes! E parou. Ele tremia todo. Agora seria decidido o seu destino. A lança já voava na sua direção. Pá! Acertou-lhe do lado. Agora ele deveria cair. Mas e se ele cair de mal jeito de novo, e tudo acabar? Ele ficou apavorado como nunca antes na vida. Estava mais apavorado do que quando saiu daquela trincheira.

Na sala, o público já percebia que alguma coisa errada acontecia no palco: um leão ferido de morte permanecia de pé no alto do penhasco e olhava para baixo. Nas primeiras fileiras escutou-se quando o diretor da peça gritou, num sussurro terrível: “Cai, demônio, cai!” E depois, todos viram uma coisa absolutamente fantástica: o leão levantou a sua pata direita, rapidamente fez o sinal da cruz, e como uma pedra, despencou do penhasco…

Por um segundo, a estupefação geral, e depois, como um projétil mortal, a sala explodiu em gargalhadas. A policial Kátya chorou de tanto rir. O leão morto, afundou o focinho nas suas patas, e chorou.

Traduzido do russo por Helder da Rocha. Fonte:  Лев (Евгений Замятин). Ilustração de Helder da Rocha.

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