Custa caro (1890) – Lev Tolstói (1828-1910)

“História real”
Baseada em conto de Maupassant

Nas margens do Mar Mediterrâneo, entre a França e a Itália, existe um reino pequenino, minúsculo. Este reino chama-se Mônaco. Lá há menos pessoas morando que numa vila grande. São sete mil habitantes ao todo, e se a terra fosse repartida sobraria pouco mais que 10 hectares por habitante. Mas nesse reino existe um autêntico monarca. Este pequeno rei possui um castelo, uma corte, ministros, sacerdotes, generais e um exército.

Um pequeno exército, sessenta homens ao todo, mas ainda assim um exército. A renda do rei não e muito grande. Como em todo lugar, cobram-se impostos sobre tabaco, vinho, vodka, e por cabeça, e, apesar de beberem e fumarem, os habitantes são poucos e não haveria como o rei sustentar seus súditos e servos nem a si próprio se não houvesse uma fonte de renda especial. Neste reino, a renda especial é obtida através de um estabelecimento de jogos: as roletas. As pessoas jogam, perdem, ganham, e o proprietário sempre tem lucro. Da renda desse proprietário o rei recebe bastante dinheiro. E muito dinheiro é pago porque essa casa de jogos é a única restante em toda a Europa. Antigamente havia casas de jogos similares nos pequenos principados alemães, mas foram proibidos uns dez anos atrás. Proibiram porque sempre aconteciam desgraças por causa dos cassinos. Um sujeito qualquer chegava, começava a jogar, perdia o controle da situação, perdia tudo o que tinha e até mesmo o dinheiro dos outros, e depois, em desespero, ou se afogava, ou se matava com um tiro. Os alemães proibiram os seus principados, mas não havia quem proibisse o príncipe de Mônaco. Somente ele restou.

E desde então, todos entusiastas do jogo visitam seu reino, perdem um monte de dinheiro e ele lucra. Com trabalho honesto não se ganha o direito de viver em um palácio de pedra. Sabe o príncipe de Mônaco que esse negócio é sujo, mas o que fazer? Viver é preciso. Afinal, tirar o sustento da vodka e do tabaco não seria melhor. E assim vive este pequeno rei, e reina juntando dinheiro a rodo, e como um autêntico monarca em seu palácio, conduz procedimentos oficiais. Faz coroações, aparições públicas, distribui condecorações, condenações, clemência, e ainda tem desfiles, conselhos, leis e foros de justiça. Age em tudo como um autêntico monarca, só que em pequena escala.

E eis que uma vez aconteceu, há uns cinco anos, no reino deste monarca, um assassinato. O povo de lá é muito pacífico, e algo desse tipo nunca havia acontecido antes. Reuniram-se os juízes, com todas as pompas, e começaram a julgar, tudo da forma como deve ser, com juízes, procuradores, juri e advogados. Julgaram, julgaram e sentenciaram, de acordo com a lei, que o criminoso tivesse sua cabeça cortada. Perfeito. Reportaram ao rei. Ele leu a sentença e afirmou: se é para executá-lo, então que seja executado! Mas havia um problema: não existia, no reino, nenhuma guilhotina para cortar a cabeça, e nem executor. Pensaram e pensaram os ministros e ao final decidiram escrever uma requisição ao governo da França. Perguntaram se os franceses poderiam enviar para eles, temporariamente, uma guilhotina e seu operador, para cortar a cabeça de um criminoso, e, se possível, que informassem também quanto seria devido. Enviaram a carta e depois de uma semana receberam a resposta: é possível sim enviar a guilhotina e executor; o custo total será de dezesseis mil francos. O rei foi informado.

O rei pensou e pensou: dezesseis mil francos! Esse canalha não vale esse dinheiro todo! Será que não é possível fazer mais barato? Porque dezesseis mil francos significam dois francos a mais de imposto extra para cada cidadão. Difícil aceitar. O povo vai se rebelar. O conselho reuniu-se para decidir o que poderiam fazer. Decidiram enviar uma carta idêntica ao rei da Itália. O governo francês é uma república, e por isso não respeitam monarcas, mas o rei da Itália pelo menos é um dos nossos, de repente, quem sabe, ele faz por menos. Escreveram a carta e logo receberam uma resposta. O governo italiano respondeu que enviariam a guilhotina e o executor com o maior prazer. E o custo total, incluíndo o transporte, seria de doze mil francos. Era mais barato, mas ainda assim caro. Mais uma vez o rei reclamou: este miserável não vale esse dinheiro todo! Ainda assim seriam quase dois francos por cabeça que teria se que acrescentar de imposto. O conselho reuniu-se novamente. Pensaram e pensaram. Será que não daria para fazer mais barato? Não seria possível pegar um dos soldados e cortar essa cabeça como um serviço doméstico? Convocaram o general. Será que não há um soldado que possa cortar a cabeça? Afinal de contas, na guerra eles já matam mesmo. E treinamos os soldados para isto, não é mesmo? O general falou com os soldados. Quem é que poderia fazer isto? Nenhum se apresentou. “Não,” eles responderam, “não podemos fazer isto porque nunca aprendemos como”.

O que fazer? Novamente pensaram e pensaram, reuniram um comitê, uma comissão, uma sub-comissão. Mudaram de idéia. Seria preciso, disseram, trocar a pena de porte por uma prisão perpétua. O rei assim demonstraria sua clemência, e o custo seria menor. O rei concordou e assim foi decidido. Só havia um problema. Não havia uma prisão especial, adequada ao encarceramento perpétuo. Tinha uma cadeia, muito simples, para prisões temporárias, mas cela resistente para manter alguém preso para sempre não tinha. Porém, depois de procurar bastante, finalmente encontraram uma acomodação adequada. Instalaram lá o jovem e contrataram um guarda.

O guarda ficava de vigia e periodicamente se deslocava até a cozinha do palácio para buscar comida. E desta maneira o jovem permaneceu preso, por seis meses, por um ano. No fim do ano o rei fazia a contabilidade, checava receitas e despesas, quando descobriu que a manutenção do prisioneiro tinha introduzido uma nova despesa, e ela não era pequena. A guarda especial e a comida. O gasto, ao longo do ano, foi de seiscentos francos. O jovem rapaz, saudável, provavelmente sobreviveria outros cinquenta. Faça as contas e diga quanto isto vai custar. A despesa é grande. Não é possível! O rei convocou seus ministros: pensem, disse, como podemos resolver de uma vez a questão desse bandido gastando menos. Senão ele vai nos custar muito caro. Os ministros reuniram-se, pensaram e pensaram. Até que um falou: “É o seguinte, senhores, na minha opinião, devemos demitir o guarda”. Um outro falou: “Mas assim ele vai fugir!” “Que fuja, e que o diabo o carregue!” Informaram a decisão ao rei, que concordou. Demitiram o guarda e ficaram esperando para ver o que aconteceria.

Logo viram: deu a hora da refeição, o prisioneiro saiu da cela, procurou o guarda e não o encontrando, foi sozinho até a cozinha do palácio atrás da sua refeição. Trouxe o que lhe serviram, voltou para a sua cela, trancou a porta e lá permaneceu. No dia seguinte fez a mesma coisa. Para ir atrás de comida ele saía sozinho, mas ir embora ele não ia. O que fazer? Pensaram. “Será necessário,” disseram, “informá-lo oficialmente que não precisamos mais dele aqui. Que ele pode ir embora.” Ótimo. O ministro da justiça o convocou: “Por que você”, perguntou, “não vai embora? Não tem mais nenhum guarda lhe vigiando. Você pode ir embora em liberdade, e o rei não vai se ofender.”

“O rei,” disse ele, “não vai se ofender, mas quanto a mim que não tenho para onde ir? Para onde é que eu vou? Vocês me trouxeram desonra com esta sentença. Agora ninguém me quer mais. Eu estou excluído do convívio social. Vocês não agiram corretamente comigo. Não é assim que se faz. Olha só, vocês me condenaram à pena de morte. Tudo bem. Deveriam ter me executado, mas não me executaram. Este foi o primeiro erro, mas eu não fiquei chateado. Depois, vocês me sentenciaram à prisão perpétua e colocaram um vigia de plantão para me trazer comida. Só que depois mandaram o vigia embora. Este foi o segundo erro, mas ainda assim eu não fiquei chateado. Afinal, eu mesmo posso ir buscar minha comida. Agora vocês me dizem: vá embora! Não! Vocês podem pensar o que quiserem, mas eu não vou para lugar nenhum.”

E agora? O conselho se reuniu de novo. O que fazer? Ele não vai embora! Pensaram e pensaram. Precisamos dar uma pensão para ele. Se isto não for feito não conseguiremos nos livrar dele. Informaram a decisão ao rei. “Não há mais o que fazer,” disse, “então façam qualquer coisa para se livrar dele.” Foi autorizada uma pensão de seiscentos francos, e notificaram o prisioneiro: “Bem, talvez, se me pagarem em dia, talvez, eu vá embora”.

Assim concordaram. Ele recebeu um terço adiantado, despediu-se de todos e deixou a propriedade do príncipe; foram apenas quinze minutos de viagem de trem. Se estabeleceu nas proximidades, comprou um pedacinho de terra, cultivou um horta, um jardinzinho, e vive muito bem. Periodicamente volta para retirar sua pensão. Depois que recebe, da uma passadinha no cassino, aposta uns dois ou três francos, às vezes ganha, às vezes perde, e depois volta para casa. Vive uma vida pacífica e aprazível.

Ele teve a sorte de não cometer o crime num lugar onde não se lamentam os gastos para cortar a cabeça de um homem, nem mantê-lo preso para sempre.

Traduzido do russo por Helder da Rocha. Fonte: Дорого стоит.

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