Custa caro (1890) – Lev Tolstói (1828-1910)

“História real”
Baseada em conto de Maupassant

Nas margens do Mar Mediterrâneo, entre a França e a Itália, existe um reino pequenino, minúsculo. Este reino chama-se Mônaco. Lá há menos pessoas morando que numa vila grande. São sete mil habitantes ao todo, e se a terra fosse repartida sobraria pouco mais que 10 hectares por habitante. Mas nesse reino existe um autêntico monarca. Este pequeno rei possui um castelo, uma corte, ministros, sacerdotes, generais e um exército.

Um pequeno exército, sessenta homens ao todo, mas ainda assim um exército. A renda do rei não e muito grande. Como em todo lugar, cobram-se impostos sobre tabaco, vinho, vodka, e por cabeça, e, apesar de beberem e fumarem, os habitantes são poucos e não haveria como o rei sustentar seus súditos e servos nem a si próprio se não houvesse uma fonte de renda especial. Neste reino, a renda especial é obtida através de um estabelecimento de jogos: as roletas. As pessoas jogam, perdem, ganham, e o proprietário sempre tem lucro. Da renda desse proprietário o rei recebe bastante dinheiro. E muito dinheiro é pago porque essa casa de jogos é a única restante em toda a Europa. Antigamente havia casas de jogos similares nos pequenos principados alemães, mas foram proibidos uns dez anos atrás. Proibiram porque sempre aconteciam desgraças por causa dos cassinos. Um sujeito qualquer chegava, começava a jogar, perdia o controle da situação, perdia tudo o que tinha e até mesmo o dinheiro dos outros, e depois, em desespero, ou se afogava, ou se matava com um tiro. Os alemães proibiram os seus principados, mas não havia quem proibisse o príncipe de Mônaco. Somente ele restou.

E desde então, todos entusiastas do jogo visitam seu reino, perdem um monte de dinheiro e ele lucra. Com trabalho honesto não se ganha o direito de viver em um palácio de pedra. Sabe o príncipe de Mônaco que esse negócio é sujo, mas o que fazer? Viver é preciso. Afinal, tirar o sustento da vodka e do tabaco não seria melhor. E assim vive este pequeno rei, e reina juntando dinheiro a rodo, e como um autêntico monarca em seu palácio, conduz procedimentos oficiais. Faz coroações, aparições públicas, distribui condecorações, condenações, clemência, e ainda tem desfiles, conselhos, leis e foros de justiça. Age em tudo como um autêntico monarca, só que em pequena escala.

E eis que uma vez aconteceu, há uns cinco anos, no reino deste monarca, um assassinato. O povo de lá é muito pacífico, e algo desse tipo nunca havia acontecido antes. Reuniram-se os juízes, com todas as pompas, e começaram a julgar, tudo da forma como deve ser, com juízes, procuradores, juri e advogados. Julgaram, julgaram e sentenciaram, de acordo com a lei, que o criminoso tivesse sua cabeça cortada. Perfeito. Reportaram ao rei. Ele leu a sentença e afirmou: se é para executá-lo, então que seja executado! Mas havia um problema: não existia, no reino, nenhuma guilhotina para cortar a cabeça, e nem executor. Pensaram e pensaram os ministros e ao final decidiram escrever uma requisição ao governo da França. Perguntaram se os franceses poderiam enviar para eles, temporariamente, uma guilhotina e seu operador, para cortar a cabeça de um criminoso, e, se possível, que informassem também quanto seria devido. Enviaram a carta e depois de uma semana receberam a resposta: é possível sim enviar a guilhotina e executor; o custo total será de dezesseis mil francos. O rei foi informado.

O rei pensou e pensou: dezesseis mil francos! Esse canalha não vale esse dinheiro todo! Será que não é possível fazer mais barato? Porque dezesseis mil francos significam dois francos a mais de imposto extra para cada cidadão. Difícil aceitar. O povo vai se rebelar. O conselho reuniu-se para decidir o que poderiam fazer. Decidiram enviar uma carta idêntica ao rei da Itália. O governo francês é uma república, e por isso não respeitam monarcas, mas o rei da Itália pelo menos é um dos nossos, de repente, quem sabe, ele faz por menos. Escreveram a carta e logo receberam uma resposta. O governo italiano respondeu que enviariam a guilhotina e o executor com o maior prazer. E o custo total, incluíndo o transporte, seria de doze mil francos. Era mais barato, mas ainda assim caro. Mais uma vez o rei reclamou: este miserável não vale esse dinheiro todo! Ainda assim seriam quase dois francos por cabeça que teria se que acrescentar de imposto. O conselho reuniu-se novamente. Pensaram e pensaram. Será que não daria para fazer mais barato? Não seria possível pegar um dos soldados e cortar essa cabeça como um serviço doméstico? Convocaram o general. Será que não há um soldado que possa cortar a cabeça? Afinal de contas, na guerra eles já matam mesmo. E treinamos os soldados para isto, não é mesmo? O general falou com os soldados. Quem é que poderia fazer isto? Nenhum se apresentou. “Não,” eles responderam, “não podemos fazer isto porque nunca aprendemos como”.

O que fazer? Novamente pensaram e pensaram, reuniram um comitê, uma comissão, uma sub-comissão. Mudaram de idéia. Seria preciso, disseram, trocar a pena de porte por uma prisão perpétua. O rei assim demonstraria sua clemência, e o custo seria menor. O rei concordou e assim foi decidido. Só havia um problema. Não havia uma prisão especial, adequada ao encarceramento perpétuo. Tinha uma cadeia, muito simples, para prisões temporárias, mas cela resistente para manter alguém preso para sempre não tinha. Porém, depois de procurar bastante, finalmente encontraram uma acomodação adequada. Instalaram lá o jovem e contrataram um guarda.

O guarda ficava de vigia e periodicamente se deslocava até a cozinha do palácio para buscar comida. E desta maneira o jovem permaneceu preso, por seis meses, por um ano. No fim do ano o rei fazia a contabilidade, checava receitas e despesas, quando descobriu que a manutenção do prisioneiro tinha introduzido uma nova despesa, e ela não era pequena. A guarda especial e a comida. O gasto, ao longo do ano, foi de seiscentos francos. O jovem rapaz, saudável, provavelmente sobreviveria outros cinquenta. Faça as contas e diga quanto isto vai custar. A despesa é grande. Não é possível! O rei convocou seus ministros: pensem, disse, como podemos resolver de uma vez a questão desse bandido gastando menos. Senão ele vai nos custar muito caro. Os ministros reuniram-se, pensaram e pensaram. Até que um falou: “É o seguinte, senhores, na minha opinião, devemos demitir o guarda”. Um outro falou: “Mas assim ele vai fugir!” “Que fuja, e que o diabo o carregue!” Informaram a decisão ao rei, que concordou. Demitiram o guarda e ficaram esperando para ver o que aconteceria.

Logo viram: deu a hora da refeição, o prisioneiro saiu da cela, procurou o guarda e não o encontrando, foi sozinho até a cozinha do palácio atrás da sua refeição. Trouxe o que lhe serviram, voltou para a sua cela, trancou a porta e lá permaneceu. No dia seguinte fez a mesma coisa. Para ir atrás de comida ele saía sozinho, mas ir embora ele não ia. O que fazer? Pensaram. “Será necessário,” disseram, “informá-lo oficialmente que não precisamos mais dele aqui. Que ele pode ir embora.” Ótimo. O ministro da justiça o convocou: “Por que você”, perguntou, “não vai embora? Não tem mais nenhum guarda lhe vigiando. Você pode ir embora em liberdade, e o rei não vai se ofender.”

“O rei,” disse ele, “não vai se ofender, mas quanto a mim que não tenho para onde ir? Para onde é que eu vou? Vocês me trouxeram desonra com esta sentença. Agora ninguém me quer mais. Eu estou excluído do convívio social. Vocês não agiram corretamente comigo. Não é assim que se faz. Olha só, vocês me condenaram à pena de morte. Tudo bem. Deveriam ter me executado, mas não me executaram. Este foi o primeiro erro, mas eu não fiquei chateado. Depois, vocês me sentenciaram à prisão perpétua e colocaram um vigia de plantão para me trazer comida. Só que depois mandaram o vigia embora. Este foi o segundo erro, mas ainda assim eu não fiquei chateado. Afinal, eu mesmo posso ir buscar minha comida. Agora vocês me dizem: vá embora! Não! Vocês podem pensar o que quiserem, mas eu não vou para lugar nenhum.”

E agora? O conselho se reuniu de novo. O que fazer? Ele não vai embora! Pensaram e pensaram. Precisamos dar uma pensão para ele. Se isto não for feito não conseguiremos nos livrar dele. Informaram a decisão ao rei. “Não há mais o que fazer,” disse, “então façam qualquer coisa para se livrar dele.” Foi autorizada uma pensão de seiscentos francos, e notificaram o prisioneiro: “Bem, talvez, se me pagarem em dia, talvez, eu vá embora”.

Assim concordaram. Ele recebeu um terço adiantado, despediu-se de todos e deixou a propriedade do príncipe; foram apenas quinze minutos de viagem de trem. Se estabeleceu nas proximidades, comprou um pedacinho de terra, cultivou um horta, um jardinzinho, e vive muito bem. Periodicamente volta para retirar sua pensão. Depois que recebe, da uma passadinha no cassino, aposta uns dois ou três francos, às vezes ganha, às vezes perde, e depois volta para casa. Vive uma vida pacífica e aprazível.

Ele teve a sorte de não cometer o crime num lugar onde não se lamentam os gastos para cortar a cabeça de um homem, nem mantê-lo preso para sempre.

Traduzido do russo por Helder da Rocha. Fonte: Дорого стоит.

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E a palavra de pedra caiu… (Anna Akhmátova)

 

E a palavra de pedra caiu И упало каменное слово
Sobre meu peito que ainda vive. На мою ещё живую грудь.
Tudo bem. Afinal, já estava pronta. Ничего. Ведь я была готова.
Vou lidar com isto de algum jeito. Справлюсь с этим как-нибудь.
Eu tenho hoje muitos afazeres: У меня сегодня много дело:
Preciso matar toda a memória. Надо память до конца убить.
Preciso, para empedrar a alma, Надо, чтоб душа окаменела,
Preciso reaprender a viver. Надо снова научиться жить.
Senão… Sussurro quente do verão А не то… горячий шелест лета
Como festival atrás da janela Словно праздник за моим окном
Há muito tempo eu pressenti este Я давно предчувствовала этот
Dia claro e a casa vazia. Светлый день и опустелый дом.
(22-06-1939)

Fonte: Анна Ахматова. И упало каменное слово. Тradução: Helder da Rocha.

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O leão (1935) – 
Yevgeny Zamyátin (1873-1937)

2016-01-06 15.29.06

Tudo começou com um acontecimento absolutamente fantástico. Mais precisamente, o grande rei dos animais, o leão, revelou-se um grande bêbado. Ele tropeçou sobre as suas quatro patas e despencou para o lado. Isto foi uma absoluta catástrofe.

O leão estudava na universidade de Leningrado e trabalhava em paralelo como figurante de balé no teatro. No espetáculo de hoje, vestido em pele de leão, ele deveria permanecer de pé no penhasco e esperar o instante em que seria atingido por uma lança arremessada pela heroína do balé. Nesse momento, o leão morto cai do penhasco em um colchão atrás do palco. Nos ensaios tudo ocorreu perfeitamente, e justo hoje, no dia da estréia, faltando meia hora para a abertura das cortinas, o leão apronta uma dessas! Não havia figurantes extras. Cancelar o espetáculo seria impossível: esta noite estaria presente um alto comissário do governo vindo de Moscou. No gabinete do “diretor vermelho”, acontecia uma reunião de emergência.

Alguém bate na porta, e no gabinete surge Pétya Jerebyákin — bombeiro do teatro. O diretor vermelho (ele agora estava realmente vermelho — de raiva) atirou-se na direção dele:

— O que é desta vez? O que é que você precisa? Não tenho tempo! Vá embora daqui!

— Eu, senhor diretor… eu… é sobre o leão, — falou Jerebyákin .

— O que é que tem o leão?

— Considerando que o nosso leão está bêbado, então… eu desejo, senhor diretor, fazer o papel do leão.

Não sei se existem ursos sardentos e de olhos azuis. Se existem, então uma figura imensa como Jerebyákin, de coturnos que parecem de ferro fundido, pareceria muito mais com um urso, do que com um leão. Mas e se por um milagre qualquer ele pudesse ser o leão? Ele jura que pode, que ele assistiu todos os ensaios das coxias, e que quando ainda era soldado fez um papel na peça “Rei Maximiliano”. Então, com despeito pelo diretor da peça que esboçava um sorriso torto, o diretor vermelho ordenou que Jerebyákin fosse vestir-se imediatamente para fazer um teste.

Em alguns minutos os músicos no palco já tocavam baixinho a “Marcha do Leão”. O Leão Pétya Jerebyákin apresentou-se na pele do leão, não como se tivesse nascido numa aldeia da província de Ryazan, mas num deserto da Líbia. Porém, no último instante, quando deveria cair do penhasco, ele olhou para baixo e hesitou.

— Cai logo, demônio… cai! — chiou o diretor da peça, sussurrando com raiva.

O leão, obediente, despencou penhasco abaixo. Caiu de mal jeito sobre a coluna e permaneceu deitado, sem conseguir ficar em pé. Será que ele não vai se levantar? Será que agora, no último instante, temos outra catástrofe?

Levantaram-no. Ele arrastou-se para fora da pele e levantou-se, pálido, com a mão na coluna e um sorriso envergonhado. Um dos seus dentes superiores estava faltando, e esse sorriso lhe passava uma aparência piedosa e infantil (se bem que sempre existe algo de infantil em relação aos ursos, não é mesmo?)

Felizmente não foi, aparentemente, nada muito sério. Ele pediu água. O diretor do teatro mandou que lhe trouxessem um copo de chá do seu gabinete. Depois que ele bebeu o chá, o diretor do teatro começou a apressá-lo.

— Bem, camarada, vá se vestir de leão. Entre no seu couro. Entre, entre, meu amigo, logo, logo vamos começar!

Alguém, prestativo, veio correndo com o couro, mas o leão recusou-se a entrar nele. Declarou, resoluto, que tinha algo que precisava fazer fora do teatro. Que necessidade extrema era esta, ele recusou-se a explicar. Apenas sorriu envergonhado. O diretor do teatro inflamou-se de raiva. Ele tentou dar ordens, tentou lembrar a Jerebyákin que ele, candidato do partido, era um operário padrão, mas o leão-operário-padrão, teimoso, não se rendeu. O diretor teve que ceder. Então, com o brilho desdentado de seu sorriso, Pétya Jerebyákin saiu correndo do teatro em disparada.

— Para que, para onde o diabo o levou? — perguntou, mais uma vez vermelho de raiva, o diretor do teatro. — Que segredos ele têm?

Ninguém tinha a resposta que o diretor vermelho queria: o segredo era conhecido apenas por Pétya Jerebyákin e, naturalmente, pelo autor desta estória. Então, enquanto Pétya Jerebyákin corre para algum lugar debaixo de uma chuva de outono em São Petersburgo, nós podemos viajar no tempo até uma certa noite de julho, onde nasceu o seu segredo.

Essa noite não era noite. Era dia, cochilando levemente por um segundo, assim como cochila o soldado que marcha, sem interromper seus passos, confundindo sonho com realidade. No espelho rosado do canal, cochilavam viradas de pernas para o ar, árvores, janelas, colunas, São Petersburgo. E de repente, com uma suave brisa, São Petersburgo desaparece. Em seu lugar está Leningrado. Acordada pelo vento, uma bandeira vermelha sobre o Palácio de Inverno; diante de uma cerca no jardim Alexandrovsky, um policial com uma espingarda.

O policial estava cercado de perto por um grupo de operários dos bondes noturnos. Por detrás dos ombros, era visível a Pétya Jerebyákin apenas o rosto do policial: redondo, parecido com as maçãs-adocicadas de Ryazan. Algo muito estranho acontecia: agarraram o policial pelos braços, pelos ombros, e finalmente, um dos operários, tirando o cachimbo da boca, gentilmente tasca um beijo na sua bochecha. O policial enrubesce, apita seu apito furiosamente, e os operários dispersam. Permanece Pétya Jerebyákin sozinho, cara a cara com o policial, e inesperadamente, como se assustado pelo vento do reflexo de São Petersburgo, o policial desaparece. Diante de Jerebyákin estava uma mulher com quepe e uniforme de policial, a primeira policial feminina, colocada pela revolução na avenida Nevsky. As sobrancelhas pretas sobre a ponte do nariz uniam-se com raiva. Dos seus  olhos saíam faíscas.

— Que vergonha, camarada! — A policial falou apenas isto, mas como falou! Ele se atrapalhou, e balbuciou com culpa:

— Mas, juro, não fui eu! Eu estava apenas indo para casa…

— Eca! Você… um operário ainda por cima! — Disse a policial, encarando-o. E como encarou!

Se houvesse aqui, no calçamento, uma portinhola falsa, como as que existem no palco do teatro, através dela Jerebyákin escaparia, e esta teria sido a sua salvação. Mas ele teve que escapar caminhando devagar, sentindo aquele olhar atravessá-lo, queimando suas costas.

O dia seguinte foi novamente uma noite branca, novamente estava Jerebyákin indo do seu trabalho no teatro para casa, e novamente diante das grades do jardim Alexandrovsky estava a policial. Jerebyákin quis passar de fininho, mas percebeu que ela olhava para ele, e, envergonhado, baixou a cabeça com culpa. Ela acenou. No metal preto-espelhado da sua espingarda refletia a aurora, e o metal parecia rosado. E diante dessa espingarda rosada Jerebyákin percebeu-se mais tímido, do que diante de todos aqueles que durante cinco anos atiraram nele em várias frentes de batalha.

Apenas depois de uma semana ele arriscou iniciar uma conversa com a policial. Descobriu que ela também, como Jerebyákin, veio da província de Ryazan, e que também lembrava das suas maçãs-adocicadas. Aquelas, que são doces, mas um pouquinho amargosas. Como elas, por aqui não há…

Todos os dias, no caminho de casa, Jerebyákin parava diante do jardim Alexandrovsky. As noites brancas estavam enlouquecedoras, e o céu verde, rosado e bronzeado não escurecia nem por um segundo. No jardim, como se fosse dia, um casal que se abraçava procurava uma sombra para não serem vistos.

Nessa noite, desajeitado como um urso, Jerebyákin  perguntou à policial:

— Então, por exemplo, vocês policiais, no desempenho de suas obrigações… vocês podem casar? Quero dizer, não quando estão em serviço, mas em geral, como seu serviço sendo como militar…

— E para que casar? — respondeu a policial Kátya, escorada na sua espingarda. — Agora nós somos como os homens: é só querer, e amar…

A espingarda dela estava rosada. A policial levantou o rosto para o brilho do céu febril, depois olhou de passagem por Jerebyákin  e concluiu:

— Por exemplo, se um homem que escreve poemas… ou um ator, que entra em cena e o teatro inteiro aplaude…

Maçã-adocicada: é doce, é amarga. Pétya Jerebyákin compreendeu que seria melhor ele ir embora dali e não voltar nunca mais: seu negócio estava terminado…

Não, não estava! Ainda existem milagres na terra! E quando aconteceu aquele evento inacreditável, em que o leão, por vontade divina, caiu bêbado, a sorte ocorreu a Pétya Jerebyákin  e ele apressou-se ao gabinete do diretor.

Mas isso tudo é passado. Agora ele corre debaixo de uma chuva de outono na rua Glinka. Felizmente, ficava do lado do teatro, e felizmente ele encontrou a policial Kátya em casa. Ela agora não era policial, era simplesmente Kátya. Com as mangas arregaçadas, ela estava lavando no tanque uma blusa branca. Na sua testa e nariz surgiram gotas de orvalho, e nunca ela esteve tão doce, como agora, doméstica.

Quando Jerebyákin pôs diante dela o bilhete de cortesia e disse que hoje ele iria atuar no espetáculo, ela não acreditou. Depois, ficou interessada. Depois, por alguma razão, ficou envergonhada e baixou as mangas arregaçadas. Depois olhou para ele (e como olhou!) e disse que iria sem falta.

O toque da campainha do teatro já soava alto pelas áreas de fumantes, pelos corredores, pelo foyer. O comissário careca, no seu camarote, espremia os olhos através de um pince-nez. No palco, por trás da cortina ainda fechada, as bailarinas ajustavam suas saias com os mesmos gestos dos cisnes quando baixam as asas para limpá-las na água. E por trás do penhasco, próximo do Leão Jerebyákin, preocupavam-se os diretores da peça e do teatro.

— Lembre-se: você é um operário-padrão! Preste atenção! Não estrague tudo! — sussurrou no ouvido do leão o diretor do teatro.

A cortina foi levantada, e atrás das luzes incandescentes da ribalta revelou-se, diante do leão, a sala escura preenchida até o teto de manchas brancas, de rostos. Tempos atrás, quando era ainda apenas Jerebyákin, ele havia saltado para fora de uma trincheira. Diante dele explodiam bombas. Ele se contorceu, e seguindo o costume de sua aldeia, fez o sinal da cruz e prosseguiu adiante sem pensar. Agora lhe parecia que não conseguiria dar sequer um passo. Mas o diretor da peça empurrou-o pelas costas, e ele, virando-se com dificuldade, com braços e pernas que de repente haviam se tornado estranhos, lentamente escalou o penhasco.

No alto do penhasco o leão levantou a cabeça, e viu, bem de perto, em um balcão do segundo piso, escorando-se contra a barreira de proteção, a policial Kátya. Ela olhava diretamente para ele. O coração leonino bateu forte uma, duas vezes! E parou. Ele tremia todo. Agora seria decidido o seu destino. A lança já voava na sua direção. Pá! Acertou-lhe do lado. Agora ele deveria cair. Mas e se ele cair de mal jeito de novo, e tudo acabar? Ele ficou apavorado como nunca antes na vida. Estava mais apavorado do que quando saiu daquela trincheira.

Na sala, o público já percebia que alguma coisa errada acontecia no palco: um leão ferido de morte permanecia de pé no alto do penhasco e olhava para baixo. Nas primeiras fileiras escutou-se quando o diretor da peça gritou, num sussurro terrível: “Cai, demônio, cai!” E depois, todos viram uma coisa absolutamente fantástica: o leão levantou a sua pata direita, rapidamente fez o sinal da cruz, e como uma pedra, despencou do penhasco…

Por um segundo, a estupefação geral, e depois, como um projétil mortal, a sala explodiu em gargalhadas. A policial Kátya chorou de tanto rir. O leão morto, afundou o focinho nas suas patas, e chorou.

Traduzido do russo por Helder da Rocha. Fonte:  Лев (Евгений Замятин). Ilustração de Helder da Rocha.

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Menino Malvado (1883) – 
Anton P. Tchekhov (1860-1904)

malchik

Ivan Ivanitch Lápkin, um jovem de boa aparência, e Anna Semyônovna Zamblískaya, uma jovem com nariz arrebitado, desceram por uma encosta íngreme do rio e sentaram-se em um banquinho. O banquinho ficava na beira da água, entre uns arbustos densos de um jovem salgueiro. Um lugar maravilhoso! Quem senta-se lá permanece oculto ao resto do mundo, e será visto apenas pelos peixes e pelas aranhas d´água que se movem como raios sobre a água. Os jovens estavam armados com varas de pescar, redes, jarros de minhocas e outros equipamentos de pesca. Logo que sentaram, imediatamente começaram a pescar.

– Eu estou feliz que estamos finalmente a sós, – começou Lápkin, olhando em volta. – Eu devo lhe dizer muitas coisas, Anna Semyônovna,… muitas, muitas coisas… Quando eu a vi pela primeira vez… Isto é uma mordida… Eu entendi então, a razão pela qual eu vivo, entendi onde se encontrava o ídolo ao qual devo dedicar a minha vida honesta e esforçada… Isto deve ser uma mordida forte… Quando te vi, eu me apaixonei pela primeira vez, me apaixonei perdidamente! Espere um pouco antes de puxar… deixe ele morder melhor… Me diga, minha amada, eu peço, se posso ter a esperança – não da reciprocidade, não! – disto eu não sou digno, não ouso nem pensar sobre isso, – posso eu ter a esperança de… Puxe!

Anna Semyônovna levantou o braço com a vara de pescar para o alto, deu uma puxada brusca e gritou. No ar brilhava um peixe prateado-esverdeado.

— Deus do céu, é uma perca! Ai, ai, rápido! Soltou-se!

A perca soltou-se do anzol, saltou pela grama na direção do seu elemento natural e… tchibum na água!

Na tentativa de pegar o peixe, Lápkin, de alguma maneira, em vez do peixe, agarrou acidentalmente o braço de Anna Semyônovna, apertando-o acidentalmente contra seus lábios… Ela puxou o braço mas já era tarde, as bocas acidentalmente uniram-se em um beijo. Isso tudo veio a ocorrer de maneira acidental. Depois do beijo seguiu outro beijo, depois juramentos, promessas… Minutos felizes! Porém, nesta vida terrena não existe nada absolutamente feliz. A felicidade geralmente traz consigo um veneno, ou então é envenenada por algo que vem de fora. E assim foi desta vez. Enquanto os jovens se beijavam, de repente ouviu-se um riso. Eles levantaram o olhar para o rio e espantaram-se: na água estava de pé um menino nu até a cintura. Era Kólya, estudante ginasial, irmão de Anna Semyônovna. Ele permaneceu em pé na água, olhando para o jovem casal e riu maliciosamente.

— A-a-a… Vocês estão se beijando? — disse ele. — Muito bem! Eu vou contar pra mamãe.

— Espero que você, como um homem honesto… balbuciou Lápkin, corando. — Espiar os outros é indecente, e delatar alguém é algo baixo, vulgar e indecoroso… Eu suponho que você, como um homem honesto e nobre…

— Me dê um rublo que eu não conto! — falou o homem nobre. — Senão eu conto.

Lápkin tirou do bolso um rublo e deu para Kólya. O menino espremeu o rublo dentro do seu punho molhado, assobiou e foi embora nadando. E, nesta ocasião, os jovens não mais se beijaram.

No dia seguinte Lápkin trouxe da cidade para Kólya um conjunto de tintas e uma bola, e a irmã deu a ele todas as suas caixinhas usadas para colocar pílulas. Depois tiveram que presenteá-lo com abotoaduras com focinhos de cachorro. O menino malvado, obviamente, adorava tudo isso, e para ganhar ainda mais presentes, ele começou a espionar. Para todo canto aonde iam Lápkin e Anna Semyônovna, ele ia atrás. Nem por um minuto ele deixava os dois a sós.

— Que canalha! — disse Lápkin, rangendo os dentes. — Tão pequeno, e já tão grande um canalha! O que vai ser desse moleque no futuro?

Durante todo o mês de junho, Kólya não deu paz aos infelizes apaixonados. Ele ameaçava delatá-los, espionava e exigia presentes. Para ele tudo era pouco, e no fim começou a falar o tempo todo sobre relógios de bolso. Não deu outra. Eles tiveram que prometer-lhe um relógio.

Uma vez durante o almoço, quando eram servidos crepes, ele repentinamente disparou a rir alto, piscou um olho e perguntou a Lápkin.

— E aí? Conto?

Lapkin corou de terror e mastigou o guardanapo em vez do crepe. Anna Semyônovna deu um salto por trás da mesa e correu para outro quarto.

E foi nessa situação que permaneceram os jovens até o final de agosto, até aquele dia em que, finalmente, Lápkin propôs Anna Semyônovna em casamento. Oh, como esse dia foi feliz! Tendo conversado com os pais da noiva e obtido a sua concordância, a primeira coisa que Lápkin fez foi correr para jardim e iniciar a procura de Kolya. Ao encontrá-lo, quase chorou de êxtase e agarrou o menino malvado pela orelha. Anna Semyônovna, que também procurava Kolya, chegou correndo pouco depois, e agarrou a outra orelha. Era preciso que se visse o prazer que estava estampado nos rostos dos apaixonados, quando Kólya chorou e implorou:

— Queridinhos, amiguinhos, amores meus, juro que não faço mais! Ai, ai, me perdoa!

E depois, ambos confessaram que durante todo o tempo em que estiveram apaixonados um pelo outro, eles nunca haviam sentido tamanha felicidade, tamanho prazer extasiante, quanto naqueles minutos em que puxavam o menino malvado pelas orelhas.

Traduzido do russo por Helder da Rocha, em 08/05/2015. Fonte: Злой Мальчик. Ilustração de Helder da Rocha.

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Andas, pareces comigo… (Marina Tsvetaeva)

Marina Tsvetaeva wanted to be laying here.
Túmulo “desejado” de Marina Tsvetaeva, em Tarusa (Foto: Helder da Rocha, julho de 2011)

Andas, pareces comigo, Идешь, на меня похожий,
Com os olhos abaixados Глаза устремляя вниз.
Eu também os abaixava! Я их опускала – тоже!
Passante, queira parar! Прохожий, остановись!
Leia – deixe seu buquê: Прочти – слепоты куриной
Botão de ouro, papoula – И маков набрав букет –
Que me chamavam Marina Что звали меня Мариной
E quantos anos eu tinha. И сколько мне было лет.
Não ache que é um túmulo, Не думай, что здесь – могила,
Que surgirei, assombrando… Что я появлюсь, грозя…
Eu amei demais sozinha Я слишком сама любила
Ria, quando não podia! Смеяться, когда нельзя!
Sangue fluía na pele И кровь приливала к коже,
E meus cachos enrolavam… И кудри мои вились…
Eu, passante, também fui! Я тоже была, прохожий!
Passante, queira parar! Прохожий, остановись!
Pegue um galho selvagem Сорви себе стебель дикий
E depois uma amora: И ягоду ему вслед:
Morango de cemitério Кладбищенской земляники
Não há maior nem mais doce. Крупнее и слаще нет.
Só não fique aí sombrio Но только не стой угрюмо,.
Cabeça baixa no peito. Главу опустив на грудь.
Em mim pense levemente, Легко обо мне подумай,
E me esqueça levemente. Легко обо мне забудь.
Como luz te ilumina! Как луч тебя освещает!
Coberto de pó de ouro… Ты весь в золотой пыли…
– Que não te deixe confuso – И пусть тебя не смущает
Minha voz que vem da terra. Мой голос из-под земли.
(1913)

Fonte: Марина Цветаева. Идешь на меня похожий. Тradução: Helder da Rocha.

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Maria Moryevna

Em certo reino, em certo país vivia o príncipe Ivan. Ele tinha três irmãs: a primeira era a princesa Maria, a segunda era a princesa Olga e a terceira, a princesa Anna. Seu pai e sua mãe morreram; ао morrerem, eles deram ordens ao filho:

– Deves dar as suas irmãs ao primeiro que vier cortejá-las. Não permaneça com elas muito tempo!

O príncipe enterrou os pais e, triste, foi caminhar com as irmãs pelo jardim verde. De repente surge no céu uma nuvem negra, trazendo consigo uma tempestade assustadora.

– Vamos, irmãzinhas, para casa! – disse o príncipe Ivan.

Mal entraram pela porta, estourou um trovão. O teto partiu-se em dois e entrou voando pela sala um falcão brilhante que pousou diante deles. Quando o falcão tocou o chão, ele se transformou num belo jovem, e falou:

– Saudações, príncipe Ivan! Antes eu fui seu hóspede, mas agora vim tratar de casamento: desejo cortejar a sua irmã Maria.

– Se você tem o amor da minha irmã, eu não irei impedi-la: que vá com Deus!

A princesa Maria concordou. O falcão casou-se e levou-a embora para o seu reino. Passam dias atrás de dias, Correm horas atrás de horas – um ano inteiro se foi. O príncipe Ivan e suas duas irmãs foram caminhar no jardim verde. Outra vez surgiram as nuvens de tempestade, com raios.

– Vamos, irmãzinhas, para casa! – disse o príncipe.

Mal entraram pela porta, estourou um trovão, o telhado de desfez e entrou voando uma águia, atingiu o chão e se transformou num belo jovem.

– Saudações, príncipe Ivan! Antes eu fui seu hóspede, mas agora vim tratar de casamento: – Escolhi a princesa Olga.

Respondeu o príncipe Ivan:

– Se você tem o amor da princesa Olga, então você pode levá-la. Não irei me opor ao desejo dela.

A princesa Olga concordou e casou-se com a águia. A águia agarrou-a e a levou embora para o seu reino. Passou-se mais um ano. Disse o príncipe Ivan para a sua irmã mais nova:

– Vamos caminhar no jardim verde!

Caminharam um pouco; mais uma vez apareceram nuvens de tempestade com raios.

– Vamos voltar, irmãzinha, para casa!

Voltaram para casa, mal conseguiram sentar quando estourou um trovão, o telhado desmanchou-se e entrou voando um corvo. Quando o corvo alcançou o chão transformou-se num belo jovem. Os anteriores eram bonitos, mas este era ainda mais belo.

– Então, príncipe Ivan, antes eu fui seu hóspede, mas agora vim tratar de casamento: me dê a princesa Anna.

– Eu não me oponho aos desejos das minhas irmãs; se ela gostou de você, ela pode ir com você.

Assim, a princesa Anna casou-se com o corvo, que a levou para o seu reino. O príncipe Ivan ficou sozinho. Um ano inteiro viveu sem irmãs, e ficou entediado.

– Eu vou procurar minhas irmãs, – decidiu.

Preparou-se para pegar a estrada, depois caminhou, caminhou e encontrou um exército derrotado. O príncipe Ivan perguntou:

– Se existe aqui algum homem vivo que me responda! Quem derrotou este grande exército?

Respondeu-lhe um sobrevivente:

– Todo este grande exército foi derrotado por Maria Moryevna, a bela princesa.

O príncipe Ivan continuou e mais adiante alcançou umas tendas brancas, onde veio ao seu encontro Maria Moryevna, a bela princesa:

– Saudações, príncipe. Para onde é que Deus te levа? Segues por vontade própria ou segues ordens?
Respondeu o príncipe Ivan:

– Bons jovens que seguem ordens não caminham por aí!

– Bem, se não tens pressa, convido-te para a minha tenda.

O príncipe Ivan ficou feliz com este acontecimento, e duas noites passou na tenda. Apaixonou-se por Maria Moryevna e casou-se com ela.

Maria Moryevna, a bela princesa, levou o príncipe consigo para seu reino. Viveram juntos por um certo tempo, mas depois a princesa pensou em ir para a guerra. Delegou ao príncipe Ivan toda a administração do reino e declarou:

– Vá para todos os lugares, dê uma olhada em tudo, mas você não deve nunca olhar dentro deste armário!

Ele não teve paciência e tão logo Maria Moryevna foi embora, correu imediatamente para o armário, abriu a porta e olhou. Lá estava pendurado Koshei, o Imortal, amarrado com doze correntes. Pediu Koshei ao príncipe Ivan:

– Tenha piedade de mim. Me dê algo para beber! Faz dez anos que eu sofro aqui, não como, não bebo, e minha garganta está muito seca!

O príncipe deu para ele um balde cheio de água; ele bebeu inteiro e ainda pediu:

– Um balde não basta para matar a minha sede. Me dê outro!

O príncipe deu outro balde; Koshei bebeu e pediu um terceiro. Quando ele terminou de beber o terceiro balde, recuperou a sua força perdida, forçou as correntes e quebrou as doze.

– Obrigado, príncipe Ivan! – disse Koshei, o Imortal. – Agora nunca mais verás Maria Moryevna assim como não vês tuas orelhas! – Transformou-se em um redemoinho assustador e saiu voando pela janela, encontrou pelo caminho Maria Moryevna, a bela princesa, capturou-a e levou-a consigo. O príncipe Ivan chorou amargamente, mas depois preparou-se e seguiu o caminho pela estrada:

– Aconteça o que acontecer, eu vou encontrar Maria Moryevna!

Passa um dia, passa outro, ao amanhecer do terceiro ele vê um castelo maravilhoso. Ao lado do castelo há um carvalho, e no carvalho está sentado um gavião. O gavião deixou o carvalho, voou até o chão, tornou-se um belo jovem e exclamou:

– Ah, meu cunhado querido!

A princesa Maria veio correndo, feliz, para encontrar-se com o príncipe Ivan. Começou a perguntar sobre a sua saúde, a contar sobre a sua vida no castelo. O príncipe foi hóspede deles por três dias, depois falou:

– Não posso ficar com vocês por mais tempo: eu vou procurar a minha esposa, Maria Moryevna, a bela princesa.

– Vai ser difícil encontrá-la, – respondeu o gavião. Deixe aqui, por via das dúvidas, a sua colher de prata: quando olharmos para ela iremos lembrar de você.

O príncipe Ivan deixou com o gavião a sua colher de prata e seguiu seu caminho. Passou um dia, passou outro, e no amanhecer do terceiro dia ele vê um castelo ainda mais maravilhoso que o primeiro. Ao lado do castelo há um carvalho, e no carvalho está sentado uma águia. A águia saiu voando da árvore, pousou no solo, transformou-se em um belo jovem e gritou:

– Levante-se, princesa Olga, o nosso querido irmãozinho está chegando!

A princesa Olga imediatamente veio correndo ao encontro do seu irmão, e logo começou a beijá-lo, abraçá-lo, perguntar sobre a sua saúde e a contar sobre a sua vida no castelo. O príncipe Ivan ficou com eles três dias mas depois falou:

– Mais tempo eu não posso ficar: eu vou procurar a minha esposa, Maria Moryevna, a bela princesa.

A águia respondeu:

– Vai ser muito difícil encontrá-la. Deixe conosco um garfo de prata. Quando olharmos para ele nos lembraremos de você.

Ele deixou o garfo de prata e seguiu seu caminho. Passou dia, passou outro, no amanhecer do terceiro ele vê um castelo ainda mais maravilhoso que os dois anteriores. Perto do castelo há um carvalho, e no carvalho um corvo sentado. O corvo saiu voando do carvalho, pousou no solo, transformou-se em um belo jovem e exclamou:

– Princesa Anna, apresse-se, venha, nosso irmãozinho está chegando!

A princesa Anna veio correndo, encontrou-se com ele com alegria, começou a beijá-lo e abraçá-lo, perguntar sobre a saúde e contar sobre sua vida no castelo. O príncipe Ivan ficou com eles por três dias e depois falou:

– Me perdoem. Vou procurar a minha esposa, Maria Moryevna, a bela princesa.

Respondeu o corvo:

– Difícil vai ser encontrá-la. Deixe conosco sua tabaqueira de prata: quando nós olharmos para ela, nos lembraremos de você.

O príncipe deu para eles sua tabaqueira de prata, despediu-se e seguiu seu caminho. Passou um dia, passou outro, e no terceiro alcançou Maria Moryevna. Quando ela viu o seu amado, atirou-se no seu pescoço, irrompeu em prantos e disse:

– Ah, príncipe Ivan, por que você não me escutou – olhou dentro do armário e soltou Koshei, o Imortal?

– Me perdoe, Maria Moryevna, mas não é hora de lembrar do passado. Melhor vir comigo antes que Koshei, o Imortal nos veja. Pode ser que ele não nos alcance.

Prepararam-se e partiram. Koshei estava numa caçada. Ele estava retornando para casa ao anoitecer quando seu bom cavalo tropeçou.

– Qual o problema, seu pangaré guloso? Por que tropeça? Ou você sente algum tipo de desgraça.

O cavalo respondeu:

– O príncipe Ivan chegou e levou Maria Moryevna.

– É possível alcançá-los?

– Pode-se semear trigo, esperar enquanto cresce, comprimir, moer, fazer farinha, assar cinco pães, comê-los de depois partir – e ainda assim os alcançaremos.

Koshei galopou e encontrou-se com o príncipe Ivan.

– Bem – falou, – esta é a primeira vez então te agradeço pela tua bondade. Na segunda vez ainda te agradecerei pela água que me deu de beber. Mas veja bem, na terceira vez eu te picarei em pedacinhos. Koshei tomou dele Maria Moryevna e levou-a embora. O príncipe Ivan sentou-se numa pedra e chorou. Chorou muito e novamente voltou para buscar Maria Moryevna. Koshei, o Imortal não estava em casa.

– Vamos, Maria Moryevna!

– Ah, príncipe Ivan, ele vai nos alcançar!

– Deixe que alcance. Temos pelo menos uma hora ou duas para saírmos juntos.

Se prepararam e partiram. Enquanto Koshei, o Imortal está voltando para casa, o seu cavalo tropeça.

– Qual o problema, seu pangaré guloso? Por que tropeçou? Ou será que você sente algum tipo de desgraça?

– O príncipe Ivan chegou e levou Maria Moryevna com ele.

– E podemos alcançá-los?

– Pode-se semear cevada, esperar enquanto cresce, comprimir e moer, fermentar cerveja suficiente para se embebedar, dormir e só depois de curar a ressaca, partir – e ainda assim os alcançaremos.

Koshei galopou e encontrou-se com o príncipe Ivan.

– Eu já te disse que não irias ver Maria Moryevna como não vês tuas orelhas!

Tomou ela dele e levou-a embora consigo. O príncipe Ivan ficou sozinho, chorou bastante e mais uma vez voltou a ir atrás de Maria Moryevna. Naquela hora Koshei não estava em casa.

– Vamos, Maria Moryevna!

– Ah, príncipe Ivan, ele vai acabar nos alcançando e desta vez vai picá—lo em pedacinhos!

– Que me pique em pedacinhos. Sem você não posso viver!

Se prepararam e partiram. Enquanto Koshei, o Imortal está voltando para casa, o seu cavalo tropeça.

– Por que tropeça? Ou você sente alguma desgraça?

– O príncipe Ivan chegou e levou consigo Maria Moryevna.

Koshei galopou, alcançou o príncipe Ivan, cortou-o em pequenos pedacinhos e pôs os pedacinhos em um barril de piche. Depois pegou este barril, lacrou-o com argolas de ferro e o jogou no fundo do mar azul. Depois levou Maria Moryevna embora consigo. Neste mesmo instante, nas casas dos cunhados do príncipe Ivan, a prata escureceu.

– Ah, disseram eles, – vejam! Aconteceu uma tragédia!

A águia atirou-se no mar azul, agarrou e arrastou o barril para a praia. O gavião voou atrás da água viva, e o corvo foi atrás da água morta. Voaram juntos os três para o mesmo lugar, partiram o barril, retiraram os pedaços do príncipe Ivan, lavaram e puseram as partes de volta em seus devidos lugares. O corvo o aspergiu com água morta – as partes separadas se uniram e o corpo se refez. Depois o gavião aspergiu água viva, o príncipe Ivan tremeu, levantou-se e falou:

– Ah, como eu dormi muito!

– E teria dormido muito mais se não fosse por nós, responderam os cunhados. – Agora venha conosco para casa.

– Não, irmãos, eu preciso procurar Maria Moryevna.

Então ele vai até ela mais uma vez e pede:

– Descubra através de Koshei, o Imortal onde ele conseguiu um cavalo tão bom.

Maria Moryevna aproveitou um minuto e perguntou a Koshei. Koshei falou:

– Além das terras distantes três vezes e nove, no reino distante três vezes e dez, atrás de um rio de fogo mora Baba Yaga. Ela tem uma potranca na qual todos os dias dá uma volta na terra. Ela tem várias outras éguas formidáveis. Eu tomei conta de suas éguas por três dias e nenhuma deixei escapar, e em troca Baba Yaga me deu um potro.

– Como você conseguiu atravessar o rio de fogo?

– Eu tenho um certo lenço que eu agito três vezes para a direita e faz aparecer uma ponte muito, muito alta, onde o fogo não alcança.

Maria Moryevna escutou e transmitiu tudo para o príncipe Ivan. Ela também trouxe consigo o lenço e deu para ele. O príncipe Ivan então conseguiu atravessar o rio de fogo e chegou ao reino de Baba Yaga. Por muito tempo ele ficou sem nada beber nem comer. Pelo caminho ele encontra uma ave marinha com seus filhotes pequenos. O príncipe Ivan diz:

– Vou comer um desses filhotes!

– Não coma, príncipe Ivan, pede a ave marinha. – Em algum momento eu poderei lhe ser útil.

Ele prossegue e mais adiante vê na floresta uma colméia de abelhas

– Eu vou pegar, – disse, – um pouco de mel. A abelha rainha responde:

– Não toque no meu mel, príncipe Ivan. Em algum momento eu poderei ser-lhe útil.

Ele não tocou no mel e seguiu mais adiante. Encontra pelo caminho uma leoa com um leãozinho.

– Eu bem que poderia comer este leãozinho. Estou com tanta fome. É importante que eu coma para que não fique doente.

– Não toque, príncipe Ivan, – respondeu a leoa. – Em algum momento eu poderei ser-lhe útil.

– Bom, que seja.

Seguiu com fome. Caminhou, caminhou até que chegou na casa de Baba Yaga. Em volta da casa haviam doze postes. Em cada um deles, exceto um, havia uma cabeça humana.

– Saudações, senhora!

– Saudações, príncipe Ivan. O que o traz aqui, a sua própria boa vontade ou a necessidade?

– Eu gostaria de servi-la em troca de um dos teus cavalos poderosos.

– Muito bem, príncipe, não precisa me servir por um ano, mas apenas por três dias. Se conseguir tomar conta de minhas potrancas eu lhe darei um cavalo atlético, mas se não conseguir, não se preocupe: eu pendurarei a sua cabeça no último poste.

O príncipe Ivan concordou. Baba Yaga deu-lhe de comer e beber e depois ordenou que iniciasse o trabalho.
Logo que ele guiou as potrancas para o campo, elas levantaram suas caudas e se espalharam por todas as pastagens. O príncipe Ivan mal teve tempo de levantar os olhos, e elas fugiram todas. E então ele chorou e lamentou-se, sentou-se numa pedra e adormeceu.

Ao por do sol, uma ave marinha chega voando e o acorda:

– Levante-se, príncipe Ivan! As potrancas já estão em casa.

O príncipe levantou-se e foi para casa. Baba Yaga esbraveja e grita com as potrancas:

– Por que vocês voltaram para casa?

– Como poderíamos não ter voltado! Vieram voando aves de todos os cantos e só não nos bicaram os olhos.

– Bem, então amanhã não corram pelas pastagens. Espalhem-se pelas florestas densas.

À noite, o príncipe Ivan dormiu. Pela manhã Baba Yaga falou para ele:

– Olhe, príncipe, se você não cuidar direito das potrancas, se uma só se perder, a sua louca cabecinha estará amanhã no poste!

O príncipe soltou as potrancas no campo. Elas imediatamente levantaram as caudas e se dispersaram pelas florestas densas. Novamente o príncipe sentou-se numa pedra e chorou, chorou, e acabou pegando no sono. O sol se pôs atrás da floresta. Veio correndo uma leoa:

– Levante-se, príncipe Ivan! As potrancas já foram todas reunidas.

O príncipe Ivan levantou-se e foi para casa. Baba Yaga esbravejou e gritou ainda mais com suas potrancas:

– Por quê vocês voltaram!

– Como poderíamos não voltar! Vieram bichos ferozes de todos os cantos. Por pouco não fomos devorados.

– Então amanhã vão para o mar azul.

Mais uma noite dormiu o príncipe Ivan. Ao amanhecer Baba Yaga ordenou que ele fosse cuidar das potrancas.

– Se você não conseguir tomar conta das potrancas a sua louca cabecinha será pendurada no poste.

Ele soltou as potrancas no campo. Elas imediatamente levantaram suas caudas, sumiram diante dos olhos e correram até mar azul, onde ficaram com água até o pescoço. O príncipe Ivan sentou-se numa pedra, chorou e adormeceu. Quando o sol se punha atrás da floresta, chegou uma abelha e falou:

– Levante-se príncipe! As potrancas estão todas reunidas. Ao chegar em casa, cuide para que os olhos de Baba Yaga não o vejam. Vá para o estábulo e esconda-se atrás da manjedoura. Lá você encontrará um potro sarnento deitado no estrume. Pegue ele e no silêncio da meia-noite e fuja da casa.

O príncipe Ivan sorrateiramente entrou no estábulo e deitou-se atrás da manjedoura. Baba Yaga esbravejou e gritou com suas éguas:

– Por quê voltaram?

– Como poderíamos não voltar! Apareceram milhares de abelhas de todos os cantos do mundo, e nos picaram de todos os lados até sair sangue.

Baba Yaga adormeceu. À meia-noite o príncipe Ivan pegou o potro sarnento, selou-o, montou e cavalgou até o rio de fogo. Quando chegou no rio, balançou o lenço três vezes para a direita e, de repente, do nada levantou-se sobre o rio uma alta e gloriosa ponte. O príncipe atravessou a ponte e depois balançou o lenço para a esquerda apenas duas vezes, deixando uma ponte finíssima sobre o rio.

Baba Yaga levantou-se ao amanhecer e não viu o potro sarnento. Saiu imediatamente atrás dele. Em velocidade máxima dirigindo o seu morteiro de ferro, guiado por um pilão e com uma vassoura atrás cobrindo os rastros. Dirigiu até o rio de fogo, olhou para o alto e pensou: “Boa ponte”!

Começou a atravessar a ponte. Logo que chegou no meio a ponte quebrou-se e Baba Yaga caiu no rio. Foi assim que ela encontrou-se com a morte cruel.

O príncipe Ivan alimentou seu potro nas verdes pastagens e ele se tornou um cavalo maravilhoso.

Mais uma vez partiu o príncipe atrás de Maria Moryevna. Encontraram-se, ela correu e atirou-se no seu pescoço.

– Como você conseguiu se livrar da morte?

– Foi assim e assim, – ele falou, – venha comigo.

– Tenho medo, príncipe Ivan! Se Koshei nos alcançar, ele vai novamente lhe picar em pedacinhos.

– Não, ele não vai nos alcançar! Agora eu tenho um glorioso cavalo poderoso que voa como um pássaro.

Os dois montaram no cavalo e partiram. Eis que Koshei, o Imortal está voltando para casa, quando seu cavalo tropeça.

– Qual o problema, seu pangaré guloso? Por que tropeça? Ou você sente algum tipo de desgraça.

– O príncipe Ivan chegou e levou Maria Moryevna.

– É possível alcançá-los?

– Não sei. Agora o príncipe Ivan tem um cavalo poderoso melhor do que eu.

– Não, não vou tolerar isto, – disse Koshei, o Imortal, – vamos atrás deles!

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Mais cedo ou mais tarde ele acabou alcançando o príncipe Ivan, saltou do cavalo e tentou acertá-lo com sua espada afiada. Neste exato momento o cavalo do príncipe Ivan atingiu em cheio Koshei, o Imortal, com o seu casco, esmagando a sua cabeça. O príncipe terminou o trabalho com seu taco. Depois disso juntou uma pilha de madeira, tocou fogo e queimou Koshei, o Imortal na fogueira. Depois lançou suas cinzas ao vento.

Maria Moryevna montou no cavalo de Koshei, e o príncipe Ivan montou no seu cavalo e ambos visitaram primeiro o corvo, depois a águia, e finalmente o gavião. Em cada lugar que chegavam eles eram recepcionados com muita alegria:

– Ah, príncipe Ivan, nós nem esperávamos vê-lo novamente! Bem, não foi sem razão que você se dedicou tanto: uma beleza como Maria Moryevna poderia-se procurar no mundo inteiro que não se acharia igual.

Eles permaneceram com os parentes por alguns dias, festejaram, e depois seguiram para o seu reino. Chegaram em casa е lá viveram juntos uma vida feliz, longa e próspera.

[Traduzido do russo por Helder da Rocha, a partir de versão publicada por Alexander Afanasyev (1826-1871). Ilustração de Ivan Bilibin (1876-1942)]

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Agrada-me (Marina Tsvetaeva): tradução literal (1)

 

Аgrada-me, que estás doente, não de mim, Мне нравится, что вы больны не мной,
Agrada-me, que estou doente, não de ti, Мне нравится, что я больна не вами,
Para que este globo pesado da terra Что никогда тяжелый шар земной
Nunca desapareça sob os nossos pés. Не уплывет под нашими ногами.
Agrada-me, que eu possa ser engraçada Мне нравится, что можно быть смешной –
Ser libertina – e não brincar com palavras, Распущенной – и не играть словами,
E não enrubescer em onda sufocante И не краснеть удушливой волной,
Ao encostar os nossos braços levemente. Слегка соприкоснувшись рукавами.
Agrada-me, que ainda, estando comigo Мне нравится еще, что вы при мне
Possa abraçar outra pessoa em paz Спокойно обнимаете другую,
E não me preveja no fogo do inferno Не прочите мне в адовом огне
A queimar para sempre porque não te beijo. Гореть за то, что я не вас целую.
Que meu nome querido, meu querido, não Что имя нежное мое, мой нежный, не
Se fale em vão, nem de dia, e nem de noite… Упоминаете ни днем, ни ночью – всуе…
Que nunca no silêncio de uma igreja Что никогда в церковной тишине
Cantem acima de nós dois: um aleluia! Не пропоют над нами: аллилуйя!
Agradeço com minha mão e coração Спасибо вам и сердцем и рукой
Por tu mesmo sem saberes, desta maneira За то, что вы меня – не зная сами! –
Me amares: pelo meu sossego noturno, Так любите: за мой ночной покой,
Pelos raros encontros ao final do dia За редкость встреч закатными часами,
Pela nossa não-caminhada ao luar. За наши не-гулянья под луной.
Pelo sol não brilhar sobre nossas cabeças, – За солнце не у нас над головами, –
Por estares doente – ai! – mas não de mim, За то, что вы больны – увы! – не мной,
Por eu estar doente – ai! – mas não de ti! За то, что я больна – увы! – не вами!
(1915)

Fonte: Марина Цветаева. Избранные стихи. Тradução: Helder da Rocha.

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